"Fiquei ao pé da cama, a vê-la cirandar em redor da cama. Quando se abaixava voltada para mim, os seios pendiam-lhe redondos. De costas para mim, o vestido esticava-se-lhe nas nádegas. Encostei-me a ela. Não se desviou, enquanto entalava a roupa na cama. Depois, saiu do encosto, e foi entalar a roupa do outro lado. Daí, olhou para mim. Dei a volta e, como quem não quer a coisa, empurrei a porta. Mas a vassoura atravessou-se e tive de a desviar. Ela continuou abaixada, entalando a roupa, e eu tornei a encostar-me. Não se afastou, nem se endireitou. Dobrei-me por cima dela e agarrei-lhe os seios. Ficou imóvel. Empurrei-a para cima da cama, e ela, em silêncio, lutou comigo por honra da firma. Mas não me deixou penetrá-la. E, depois, pegou em roupa suja minha, que estava no chão, e limpou-se, e às minhas calças. Ajustou o vestido, abriu a porta, e saiu com essa roupa na mão. Voltou da casa de banho com ela humedecida, e limpou-me cuidadosamente, sentada na cama. No fim, olhou para as calças, levantou os olhos para mim, e disse: - Vão precisar de ser lavadas - e riu. Era feia de cara, com a boca grosseira e o nariz achatado. Segurei-lhe no queixo. - Largue-me -. - Logo à noite?-. -Não, que o senhor desgraça-me -.- Não te desgraço, prometo -.- Promete que é só brincadeira? -. - Prometo -.- Depois que o senhor vier, e estiverem todos deitados eu subo. E agora tenho de ir senão desconfiam -. E, agarrando na roupa suja, no pano do pó, que foi buscar à mesa, e na vassoura, saiu."
Jorge de Sena, in Sinais de Fogo, Edições Asa pag 203/204
