"O meu pai tinha sido ferido e torturado e pediu-me para fazer as malas antes de partirmos. como se faz a mala de um homem quando se é uma rapariguinha de 15 anos? O que é que se põe lá dentro? (Pausa) Sabe o que levei na minha mala? O meu tesouro. A camisa de noite de núpcias que a minha mãe tinha comprado para o meu casamento e de que eu não me queria separar. Parti para Auschwitz com uma camisa de núpcias, magnifica, em cetim branco."
Todos os dias tinha um pânico tão grande de ir para as câmaras de gás! E todos os dias a chaminés ardiam. Quando chegámos, perguntávamos às mulheres que lá estavam há mais tempo: "Onde estão as outras?" Elas apontavam para as chamas e diziam "Partiram ao comando do céu" Demorei algum tempo a perceber".
"Fui recebida no cais por um tio, também ele tinha estado em Birkenau, e a primeira coisa que disse foi: "Não lhes contes nada. Eles não percebem nada do que se passou".
"Nunca quis ter filhos. Durante anos não suportava bebés. Vi demasiadas crianças morrer".
Excertos da entrevista de Marceline Loridan-Ivens, sobrevivente de Auschwitz, cineasta, à Revista Única
