"E assim, temos o grande liberal Passos Coelho, que queria privatizar a Caixa Geral de Depósitos, porque acha que o Estado não sabe gerir a banca, a comprar agora uma posição accionista de 99,2% no Banif, com direito a nomear para lá dois administradores, em representação do Estado.[...]
A verdade é que, se o Governo preferiu meter-se noutra aventura financeira de resultado mais do que incerto, foi apenas para não desagradar a Berlim e à troika: eles mandam, Gaspar transmite o recado e Passos Coelho acata. E Berlim e a troika não se preocupam com a falência de pequenas empresas viáveis e com o exército de desempregados que essas falências acarretam: consideram-nas "processos de ajustamento" necessários. Mas, quando toca à falência de bancos, mesmo de bancos de vão de escada, aí o caso é diferente: é interpares.[...]
Este "capitalismo financeiro desregulado e egoísta" que apenas pensa em mais dinheiro e mais lucros e que "aposta num crescimento feito à custa dos direitos e deveres sociais" (conforme definiu o Papa na sua mensagem de Ano Novo), foi o que nos lançou na crise que agora vivemos, primeiro na América, depois na Europa. Milhões de americanos e europeus perderam os seus empregos, as suas casa, as suas empresas, as suas vidas, para que os governos esquecessem a economia e tratassem de acorrer à banca.[...]
E o mais chocante ainda é constatar que nenhuma lição foi aprendida.[...]
No dia seguinte a ser anunciada a intervenção do Estado no Banif, as moribundas acções do banco deram um salto de 7%. Eis o tão louvado mercado a funcionar, na hora da verdade: sem o socorro dos contribuintes nos momentos de aperto, ele não passa de uma feira de vaidades ocas."
Excertos do texto de Miguel Sousa Tavares, "E agora, o Banif", no Expresso
