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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A besta negra



Vivemos tempos de chumbo. Com a classe média brutalizada e empobrecida pelas medidas do governo além da troika, os valores democráticos da tolerância e de respeito pelo estado de Direito têm vindo a perder terreno para o populismo e extermismo.  Na semana passada Sara Vasconcelos  foi violentamente agredida por um taxista no Porto, depois de se ter despedido de uma amiga com um beijo na boca. Mas o caso que está ao rubro é o da entrevista recusada a José Socrates. A este propósito recomendo a leitura do postal do insuspeito José Manuel Correia Pinto
A verdade é que o país está sedento de bodes expiatórios e todo o circo mediatico criado à volta deste caso, cumpre às mil maravilhas os propósitos de quem nada tem para oferecer para além do embrutecimento e revanchismo de um povo à deriva e sem perspectivas de futuro.
Temo que nada disto vá acabar bem.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Socialistas, morte natural ou eutanásia?"



"Esta inclinação da maioria dos socialistas e sociais-democratas europeus para pensar como a direita, este acomodar ao "realismo" da ditadura do dinheiro sobre a dignidade dos cidadãos, sobretudo os mais desprotegidos, não vai dar bons resultados. Deixa milhões de pessoas, por essa Europa fora, sem esperança, nem representatividade política. Se esta eutanásia acontecer, um turbilhão de novas esperanças pode varrer os socialistas do mapa político da Europa. Citando a última frase de "Cem anos de Socialismo", de Donald Sassoon: "Todos quantos têm mostrado simpatia para com o projecto socialista, que têm sofrido com as múltiplas prevaricações, os constantes compromissos e as hesitações estultas dos partidos organizados, não devem esquecer que, apesar de tudo, esses partidos são a única esquerda que resta". Agora cabe perguntar: até quando?"

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um país à deriva




"Anomia

A palavra não é muito usada, mas a expressão cunhada por Durkheim é a única que me ocorre para simbolizar o que hoje atravessa Portugal. Ausência de objectivos, diluição de identidade, descrença num sentido colectivo de vida são os sinais contemporâneos que nos revelam um país à deriva. Não se deduz daqui um derrotismo catastrofista, porque estamos sempre a tempo de mudar o rumo às coisas e, contrariamente ao que vulgarmente se pensa e diz, já atravessámos crises bem piores. Mas, para mudar, é necessário perceber como e por onde andamos e, em especial, evitar passos irreversíveis.

O que se tem passado nos últimos tempos na máquina do Estado, se bem que previsível, ultrapassou todos os limites da razoabilidade e da incompetência aceitável: As crises no sistema educativo e na Justiça, somadas a afloramentos de ruturas em várias outras políticas públicas, mostram que a aposta no desmantelamento do Estado, que este governo levou a cabo com um zelo sem precedentes, está a "funcionar": o estado do Estado é já o que se vê.

Para isso juntou-se uma agenda ideológica de liberalismo simplista, servida por um pessoal político em geral impreparado, um cocktail de "jotas" com homens de aparelho, acolitados por tecnocratas cínicos e por deslumbrados com MBA, com uma agenda geracional agressiva, que se sentaram à mesa da desorçamentação do Estado atulhados de preconceitos: o Estado é hoje gerido por quem o odeia e despreza. No início obedeciam ao "script" dado pelo Memorando, que, com aparente alegria doutrinária, haviam herdado e que iam mesmo polindo com o zelo dos neófitos. A palavra de ordem era desregular, "desblindar", acabar com as "golden shares" que perturbavam o livre fluir do mercado, privatizar tudo quanto fosse possível. Ah! e fazer tudo isso tão depressa quanto viável, antes que o país aturdido acordasse e os devolvesse à procedência.

Ao fim de uns meses pelos corredores do poder, percebeu-se logo que esse pessoal se achava possuído de uma "filosofia": uma espécie de otimismo visionário e profético, uns novos "amanhãs que cantam" que pediam meças à credulidade determinista do "socialismo real". Alguns parece que chegaram a acreditar piamente na bondade dessas soluções e, como também ocorreu do outro lado do espelho ideológico, encaravam as vítimas da conjuntura - os velhos, os reformados, os doentes, os excluídos, os desempregados - como uma espécide de inevitáveis "colateral casualties". Sem remorsos, porque o "homem novo" estaria ao virar da esquina a salvar-lhes as consciências. E o seu futuro, claro.

Depois, foi, não o que se viu, mas o que está a ver-se. A dívida disparou, o desemprego também (na melhor das hipóteses fixá-lo-ão ao nível que o governo Sócrates o deixou), fazem uma coreografia anual para colocar o défice tão próximo dos objectivos quanto as malabarices financeiras o permitem, o Estado está no estado em que está e quem vier a seguir que feche a porta. Agora, atrapalharam-se no BES, deixaram a PT ir ao fundo sem um ai tempestivo, estão ainda a pensar se têm tempo para dar cabo da TAP.
E o país? O país, pelo que mostra, permanece em anomia, se acaso ainda restasse a menor dúvida.
E se acordar?"


Com uma vénia ao Francisco Seixas da Costa

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

"O homem das peúgas que devia subir a ministro"




"Álvaro Costa tem uma fábrica de peúgas em Barcelos e não diz que exporta "strumpor" para a Suécia. Diz "peúgas". Homem simples, ele não fala sueco e inglês pronuncia mal. Se calhar, Álvaro Costa também não lê jornais económicos, daqueles que explicam os swaps, assim: "No fundo é como no casino. Apostamos no vermelho mas às vezes sai o preto." Ora quem vai ao casino sabe onde entra, há luzinhas à porta a apagar e a acender. Mas, em 2008, quando o gerente de um banco falou ao fabricante de peúgas, não trazia na cabeça luzinhas a apagar e a acender. O bancário propôs um "contrato swap", o que ficou entendido como trocar para taxa fixa os juros do empréstimo que o empresário fizera. Troca, pensou este, dentro de um risco razoável entre gente séria. Mas veio a crise e Álvaro Costa descobriu que, afinal, até era mais do que roleta, era jogar a vermelhinha com aldrabões: "Eu ainda hoje não percebo muito bem o que é um contrato suópi", diz. Ignorante? Sim, como todos, até a nossa ministra das Finanças, que também fez swaps (ela pronuncia bem) sem calcular o risco todo. Mas se Álvaro Costa era ignorante em swaps, não era tanso. Pagou os juros que o banco lhe pedia, mas meteu-o em tribunal. Ganhou. O Supremo anulou o contrato e obrigou o banco a devolver o abuso. Infelizmente, os sapateiros que subiram acima do chinelo e chegaram a ministros não têm, com o nosso dinheiro, o mesmo interesse que o fabricante de peúgas tem com o dele."


domingo, 16 de junho de 2013

Citação

"Podia continuar a enumerar exemplos de como Portugal, não sendo o país com que todos sonhámos, é hoje bem melhor do que há 30 anos. Foram cometidos erros, mas o alcance das transformações sociais dá-nos motivos de orgulho como comunidade. [...] Pelo desculpa pela desabafo mas não me conformo com a inercia das mulheres e dos homens bons do meu país perante a rápida destruição do que construímos. Podemos aceitar que a história não é uma caminhada imparável rumo ao progresso; sabemos também que os constrangimentos que enfrentamos nos colocam desafios difíceis de gerir; o que não devemos é tolerar com passividade que, através de uma combinação explosiva de incompetência e voracidade ideológica, se vá lançando as bases de um "Estado de excepção". A ligeireza com que o Governo tem afrontado a Constituição é aviltante. [...] A incompetência é uma marca igualmente distintiva. [..] Foi com incredulidade que vimos a queda do investimento ser justificada pela chuva. [...] Não podemos permitir que façam de nós o que lhes apetece, baseados em diatribes ideológicas sem qualquer sustentação com a realidade.
O problema está para lá da esquerda e direita. O que está em causa não é secundarizar  diferenças ideológicas. É tão só resolver um problema anterior: devolver Portugal à razoabilidade. Para isso precisamos urgentemente de outro Governo e de outra coligação social. Tenho a certeza que há suficientes homens e mulheres bons no meu país para impedirem a continuação do desastre em curso. Ficamos a aguarda a vossa acção.

Pedro Adão e Silva, Carta aos Homens Bons do Meu País"

domingo, 28 de abril de 2013

"A encenação do fim"


"Este ano, contrariando uma tendência dos últimos tempos, os jardins de São Bento e do Palácio de Belém estiveram encerrados no 25 de abril. O facto não teria particular relevância se não ocorresse num contexto de fechamento crescente da classe política e quando a crise de representação já há muito deixou de ser apenas um espectro a pairar sobre o regime. No dia em que se celebra a democracia, os portões das instituições fecham-se simbolicamente, por estarem em manutenção.
[...]

Até hoje, nunca tínhamos tido um Presidente da nossa República a desvalorizar de forma tão veemente as eleições, as escolhas políticas e o papel das divergências em democracia. Podemos discordar das opções programáticas dos outros, mas não podemos, em caso algum, condicionar a soberania popular conquistada há 39 anos. A mensagem foi clara: as eleições não interessam, o que conta é o cumprimento do memorando; as ideologias são perigosas, o que importa é o tratado orçamental. Que um dirigente partidário, oportunisticamente, faça um discurso desta natureza, é explicável. Que a mais alta figura do regime lhe dê peso institucional é um prenúncio de que nos aproximamos do fim."

Pedro Adão e Silva "A Encenação do Fim", Expresso

domingo, 7 de abril de 2013

A armadilha segurista



"O PS, por se ter autoinibido de falar do passado, é, hoje, incapaz de se demarcar da interpretação feita pelo Governo, logo de oferecer um caminho alternativo" [...]
"O que surpreende é a timidez do PS  [...] não contraria a tese da "década perdida", incorpora o argumento do despesismo - que, aliás, não está reflectido no défice de 2009, causado por um desvio na receita - e abdica de fazer uma reflexão retrospectiva em torno das armadilhas da moeda única.
Estamos perante um verdadeiro pecado original: o PS ou tem algum rasgo estratégico ou não será capaz de articular uma alternativa política com futuro. Por mais medidas importantes que apresente (v.g., reembolso dos lucros do BCE com a compra de dívida soberana), se não romper com esta tenaz narrativa, estará condenado a ter como programa, num contexto radicalmente diferente do de 2005, uma versão light do choque tecnológico."

Excerto do texto de Pedro Adão e Silva, "Uma Tenaz Narrativa", no Expresso

domingo, 20 de janeiro de 2013

Citação

..."há um conjunto de desafios políticos para resolver nos próximos tempos: à cabeça, renegociar o memorando e reestruturar a dívida. Como sublinhou esta semana Ferro Rodrigues, estes objectivos precisam de um consenso político "muitíssimo mais alargado do que o tradicional quadro de alternância". Em Outubro, passadas as eleições alemãs e estabilizada a situação europeia, é disso que estaremos a falar. Até lá é preciso escolher os protagonistas que se vão sentar à mesa das negociações para defender os interesses portugueses. Parece-me que a dupla Passos/Gaspar não terá condições para participar nas negociações."

Pedro Adão e Silva,  excerto de "Uma espécie de Vacina", Expresso