No talho de uma grande superfície de Oeiras, o sensor da máquina de senhas para o atendimento não faz justiça ao nome. Chega uma mulher, pressiona e nada, volta a pressionar, nada. Tento ajudar, digo-lhe, tem de carregar com mais força. A mulher olha-me com maus modos, carrega com força, retira a ambicionada senha, vira-me as costas e num gesto desabrido diz para o homem – olha, tem de se carregar com mais força!
Entramos no frenesim dos jantares de Natal. Esta noite foi o da empresa. Discursos de treta, falas mansas, sorrisos de circunstância. Estou a chorar de barriga cheia. Devia estar calada que a vida está pela hora da morte para milhares de portugueses sem trabalho.
Fui ao Museu de Arte Antiga ver as Tapeçarias de Pastrana. De adiar em adiar, entre os períodos de férias e os fins de semana na praia, hoje meti-me ao caminho, convencida que amanhã era o ultimo dia da exposição. Afinal, boas notícias para quem ainda não viu, a exposição prolonga-se até ao próximo dia 3 de Outubro. Mas não é das tapeçarias que venho falar, não tenho nem o engenho nem a arte para tratar de tão delicado tema. Uma boleia deixou-me à porta do Museu. No regresso, dirigi-me à estação de Santos para apanhar o comboio para Oeiras. Primeira contrariedade, não há bilheteira, agora é tudo por meio da máquina de bilhetes colocada no exterior da estação. O que vale é que há sempre uma alma caridosa pronta a ajudar uma cota da Linha.
Em Santos éramos quatro à espera do comboio, eu, uma brasileira que não se calava ao telemóvel, um jovem negro em tronco nu bem torneado, óculos escuros, cabelo espetado, headphones, e uma jovem de corpo franzino na casa dos vinte anos, cabelos castanhos escorridos, headphones, grandes tatuagens no braço e ante-braço, longas unhas pintadas de encarnado e chinelos. O comboio parava em todas as estações, entre Santos e Oeiras embarcaram ucranianos, chineses, brasileiros e um grupo de negros ao estilo yah meu. Dos tradicionais portugueses de antanho nem vê-los, agora andam todos de pópó.